EXPEDIENTE DO SITE
Diagramação: Marco Scalzo
Diretora de Imprensa: Vera Luiza Xavier
O psicólogo Rui Carlos Stockinger apresentou números e os sintomas da síndrome de burnout em evento no Sindicato. Muitos bancários e bancárias na plateia se identificaram com os sintomas da doença
Carlos Vasconcellos
Imprensa SeebRio
A categoria bancária é a que mais sofre com a síndrome de burnout no Brasil e no mundo: 84% dos trabalhadores apresentam a doença como resultado da gestão abusiva de metas e do assédio moral nos bancos. Os dados alarmantes são de uma pesquisa realizada em parceria com o Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro e a Contraf-CUT, em 2025 e foram apresentados pelo psicólogo e especialista Rui Carlos Stockinger, durante palestra realizada na segunda-feira (13), no auditório do Sindicato.
Números alarmantes
Entre 2020 e 2025, o Brasil registrou aumento de 500% nos afastamentos por problemas de saúde mental. “Somente em 2025 tivemos 500% a mais de afastamentos por doenças mentais, boa parte com quadros depressivos. Muitos são casos de burnout, mas não foram diagnosticados”, explicou o especialista.
Mulheres são maioria
Em todo o mundo, as mulheres são maioria entre os casos de burnout. “Do total, 75% são mulheres”, afirmou.
O Brasil apresenta média de 32% de casos na população geral, ficando atrás apenas do Japão, que registra índice de 70%. Na Europa, a média varia entre 16% e 17%. Nos Estados Unidos, chega a 14%. “Entre os bancários brasileiros, o índice chega a 84%, um número sem precedentes”, ressaltou. “O Brasil também lidera em ansiedade e estresse”, acrescentou, lembrando que cerca de 15% do PIB mundial é gasto com doenças mentais relacionadas ao trabalho.
Durante o evento, organizado pela Secretaria de Saúde do Sindicato, o especialista também lançou o livro “Burnout: Conflitos de Valores Éticos e Alterações de Identidade” e apresentou um histórico das doenças relacionadas ao trabalho, que hoje atingem níveis recordes. “Com a reação dos sindicatos por melhores condições de trabalho, as empresas passaram a denominar os empregados como 'colaboradores’, um termo mais suave. “Na prática, porém, eles continuam submetidos a metas e, muitas vezes, a situações degradantes, que levam ao adoecimento”, afirmou.
O psicólogo também alertou para a subnotificação dos casos de burnout, causada pela banalização da doença nos ambientes de trabalho.
Conflitos éticos
Rui destacou ainda os conflitos éticos gerados pelo modelo de gestão das empresas. “A pessoa perde o sentido na sua relação com o trabalho e passa a se sentir um objeto. Os bancos vendem à sociedade, através da propaganda, uma imagem ética, mas, muitas vezes, os trabalhadores são pressionados a comercializar produtos que entram em conflito com seus valores éticos. Isso gera sofrimento e adoecimento”, explicou.
Trabalho e vida privada
Segundo o especialista, o burnout vai além do estresse e pode levar a quadros graves, incluindo pensamentos suicidas. “Chega um momento em que o trabalho sai da pessoa, mas a pessoa não sai do trabalho. O primeiro sintoma costuma ser a perda do sono, justamente no momento mais íntimo do indivíduo”, afirmou. Ele destacou ainda que ambientes de trabalho adoecidos podem afastar o trabalhador da vida pessoal e familiar, agravando o quadro.
Desumanização no trabalho
“O trabalhador deixa de lado valores de cooperação e coletividade e passa a incorporar a lógica desumanizada do ambiente corporativo. Quanto menos valores humanos, menor a preocupação com o outro”, observou Rui.
Ao final, o especialista disse que o bancário, em função do modelo de gestão desumano dos bancos, é a categoria com maior sentimento íntimo de “pequenez” e que não consegue ter expectativa de vida fora do local de trabalho, não se sentindo capaz de construir uma vida alternativa fora do banco.
Ao final do evento, o Sindicato sorteou exemplares do livro entre os participantes. O presidente José Ferreira e o secretário de Saúde, Edelson Figueiredo, agradeceram a presença do palestrante, do público e dos dirigentes sindicais que colaboraram na organização da atividade.