Segunda, 08 Julho 2019 14:39

O Match Point do golpe

Escrito por Ricardo Almeida

O bom jogador de tênis se revela, principalmente, durante o Match Point e não quando a partida está mais tranquila. Numa disputa política ocorre algo parecido, pois algumas pessoas permanecem firmes, enquanto outras se apavoram com as ações dos adversários (e tremem na base). Talvez elas acreditem que um dia 100% da sociedade estarão do seu lado e se esquecem de celebrar as conquistas junto com quem chegou para refletir e avançar.

Se é verdade que as manifestações de rua ocorrem somente quando as pessoas e as organizações criam, articulam e divulgam os seus planos e ações, é preciso lembrar e valorizar quem concretizou os desfiles da Paraíso do Tuiuti e da Mangueira, os diferentes coletivos que chamaram o 8M, as centrais sindicais que se unificaram em torno do 1º de maio de 2019, as diversas organizações de estudantes, professores e servidores que se mobilizaram em defesa da educação pública, os artistas e realizadores do Festival Lula Livre, as categorias que aderiram à greve do dia 14 de junho e os organizadores da maior parada LGBT do mundo.

Estes avanços plurais e democráticos (para além dos partidos, sem ignorá-los) foram fundamentais para o avanço da consciência do povo e também para diminuir a força da sociedade conservadora nas ruas. Por um lado, porque a maioria das pessoas aprende apenas pela experiência, durante as disputas políticas (e não ao lerem livros), e por outro porque o Intercept Brasil e o documentário “Democracia em Vertigem”, junto com a imprensa digital alternativa, estão desmontando a narrativa hegemônica da Rede Globo e das demais redes de intrigas.

Portanto, está na hora de fortalecer os coletivos existentes, capazes de enfrentar esta batalha com Moro, Dallagnol e Lava-Jato, sabendo que ela ainda não é o final de uma disputa política. Ao mesmo tempo, para vencer a estupidez, a mentira e a força bruta também será necessário adquirir uma sabedoria oriental e/ou dos povos indígenas, para identificar o propósito maior e alguns princípios, que orientem uma estratégia de médio e longo prazos.

Felizmente, o propósito que unifica amplos setores da sociedade foi enfatizado e detalhado pelo ex-presidente Lula durante a entrevista dada para o Trajano e o Juca Kfouri: a defesa da soberania nacional. No entanto, os porta-vozes dos partidos e das organizações da sociedade civil ainda precisam reconhecer que este é o propósito que pode unificar a resistência popular e democrática no Congresso e nas ruas e que também serve para desmascarar os falsos patriotas e suas fakenews. Já a liberdade de expressão, a igualdade e a democratização dos meios de comunicação, a autonomia das organizações e a necessidade da máxima convergência possível entre as pautas políticas, o reconhecimento da diversidade cultural, a defesa dos direitos civis, a identidade de gênero, a liberdade de credo, entre outras questões, são princípios que estão germinando nos bares, nos lares e nas ruas, e apenas precisam ser valorizados e pactuados.

Nesse sentido, defender a liberdade de Lula é um pouco disso tudo, mas também representa a luta por igualdade e justiça para todos os brasileiros e todas as brasileiras.

Enfim, se ainda não estamos vivendo a batalha final frente aos golpistas, este momento deve ser visto como uma disputa daquele ponto crucial, que pode desnudar todo o esquema nacional e internacional que assaltou o Brasil e os direitos do povo brasileiro. É um novo tempo de esperança e talvez um caminho que deixaremos de herança para as futuras gerações. Com persistência, aliada à paciência e sensibilidade históricas, as forças de esquerda poderão aprofundar essas reflexões junto às demais forças democráticas e, ao mesmo tempo, fomentar a organização de diversas formas de resistência. Não esqueçam de que a nova sociedade surgirá na velha sociedade e também que ela será construída por quem estiver organizado e preparado para disputar o ponto final: o Match Point.