Sábado, 08 Junho 2019 12:38
ENCONTROS ESTADUAIS BB E CEF

Políticas econômicas recessivas são usadas por mercados para pressionar governo a fazer reformas

O economista do Dieese, Fernando Amorim, fez uma análise da conjuntura econômica na abertura conjunta dos Encontros Estaduais do BB e da Caixa, no Rio O economista do Dieese, Fernando Amorim, fez uma análise da conjuntura econômica na abertura conjunta dos Encontros Estaduais do BB e da Caixa, no Rio

As políticas econômicas recessivas praticadas nos últimos anos no Brasil são uma das estratégias utilizadas pelos mercados para pressionar o governo a realizar reformas, como a Trabalhista, aprovada no governo Temer, e a da Previdência, proposta pela equipe econômica de Bolsonaro e que está em discussão no Congresso Nacional. A afirmação foi feita pelo técnico do Dieese-RJ, Fernando Amorim, na análise da conjuntura econômica, que abriu os debates dos Encontros Estaduais dos funcionários do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, na manhã deste sábado, dia 8 de junho, no auditório do Sindicato. Segundo Amorim, as “pol&iac ute;ticas pró-cíclicas contribuem para o discurso de que são necessárias reformas liberais, como privatizações e reforma da Previdência, para o país retomar o crescimento econômico”.

Impasse nas exportações


Amorim rebateu o discurso liberal dizendo que não há a relação direta entre a reforma da Previdência e a retomada do desenvolvimento. Ele considera que “outros impasses da economia explicam muito melhor a recessão, como os altos juros e a ausência de valores agregados na exportação, que repercutem na balança comercial”. Na avaliação do economista “o Brasil exporta essencialmente matéria-prima, como minério, petróleo e produtos agrícolas e o país precisa vender produtos de valor agregado, como os de intensa tecnologia, cuja participação tem sido cada vez menor nas exportações brasileiras. Desde os anos 1990, a participação destes produtos (manufaturados) nas exportações brasileiras oscila ao redor dos 40%. Entre 2007 e 2010, esta participação saltou 10 pontos percentuais, alcançando 51% das exportações brasileiras. Estudos mostram que a perda de competitividade e de mercado das exportações brasileiras de produtos com valor agregado se acentuou com a crise econômica global em 2008, com as oscilações do real frente ao dólar e devido ao aumento da participação da China no mercado mundial.

Trapalhadas de Bolsonaro
Amorim lembrou que a agropecuária tem sustentado a atividade econômica brasileira nos últimos anos, mas as “trapalhadas” de Bolsonaro e dos filhos, com posições que prejudicam a política externa, estão afetando a exportação dos produtos do setor. Citou como exemplo o reconhecimento de Bolsonaro de Jerusalém como capital de Israel e não mais Tel Aviv, o que resultou em retaliações de países árabes a produtos nacionais, como a carne e a briga com a China por questões ideológicas e para atender a pressão do governo dos EUA.

O cartel dos bancos e os juros


Os juros altos são outro aspecto fundamental que impedem o Brasil de sair da crise, segundo Fernando Amorim. Como representante do mercado especulativo, neste assunto o ministro da economia e banqueiro, Paulo Guedes, não toca, por motivos óbvios. O Brasil possui hoje a segunda maior taxa Selic (juros básicos) do mundo, atrás apenas de Madagascar. Os bancos praticam as maiores taxas de juros do mundo: 322% no cheque especial e até 430% no rotativo do cartão de crédito. O técnico do Dieese criticou ainda a redução da oferta do crédito nos bancos públicos a partir do governo Temer.
“Houve uma política mais agressiva de ofertas de crédito no setor privado, principalmente no Santander, mas os juros jamais terão redução significativas sem uma política das instituições públicas do sistema financeiro”, explica. O especialista rebateu também a retórica privatista do mercado.
“Se os bancos públicos não dão lucros satisfatórios, a retórica é de que o setor público é ineficiente e precisa ser vendid. Se dão lucro, como é o caso do Banco do Brasil neste momento, eles mudam o discurso e dizem que tem que privatizar justamente porque as empresas são lucrativas. Mudam a retórica conforme a circunstância para repetir a defesa de seus interesses privados”, acrescenta.

Inflação e salários


Em relação à inflação, Amorim destacou que a sensação das pessoas de que os índices são mais altos do que os oficiais acontecem devido a necessidade de gastos cada vez maiores com escola e planos de saúde privados, em função da deterioração dos serviços públicos nos últimos anos. Em relação à campanha salarial dos bancários deste ano, mostrou um estudo de queda dos ganhos reais dos acordos salariais fechados este ano e que a tendência é que a redução seja ainda maior em setembro, data-base da categoria, cuja previsão inflacionária é de cerca de 4%. A situação do poder de compra do trabalhador é ainda mais grave em São Paulo e no Rio de Janeiro, estados em que a cesta básica teve, respectivamente, as maiores altas.

Emprego


Em relação ao emprego, o técnico do Dieese mostrou um dado preocupante, além do crescimento do desemprego: o crescimento do subemprego e da informalidade, em relação ao emprego formal. Cerca de 26% dos brasileiros trabalham por conta própria, contra 36% que estão no mercado formal privado de trabalho e 12%, no setor público.
“A formalização do mercado de trabalho aumenta a receita dos governos e o crescimento da informalidade, ao contrário, eleva o impasse do déficit público”, afirma Amorim.
Lembrou que as expectativas quanto à economia são preocupantes. Há uma tendência de redução das previsões do próprio mercado. Para este ano, já há avaliações de menos de 1% de crescimento do PIB ou mesmo de estagnação.