Reencontrei um velho conhecido na rua esta semana. Desempregado havia dois anos, só lhe restou aceitar o pior emprego do mundo: trabalhar num call center. Como ele, contratado há sete meses, mais 100 mil pessoas deverão entrar para o ramo nos próximos cinco anos, graças ao incentivo fiscal que a prefeitura dará às empresas de telemarketing que se instalarem na Zona Norte do Rio. Aos que já estão esfregando as mãos, no entanto, sugiro que só o façam no final deste texto. Se conseguirem.
Meu amigo trabalha numa empresa que presta serviço para um grande banco privado. Grande não, enorme. Todos os dias, cada um dos cerca de 2 mil funcionários passa seis horas sentado, com um fone de ouvido acoplado a um microfone, tentando vender cartões de crédito. Ao final do expediente, muitas vezes não conseguiram empurrar uma só unidade e, não raro, ouviram dezenas de grosserias de pessoas incomodadas com suas ligações. Do Rio Grande do Sul a Roraima, os operadores de venda não escolhem DDD, ligam para todos os estados e destilam toda sorte de argumentos na esperança de que a pessoa do outro lado da linha aceite a oferta.
_ Uma vez, eu soltei uma que fez todo mundo cair na gargalhada _ contou-me o abnegado camelô telefônico. _ Estava tentando convencer uma mulher e contei a ela que, se comprasse, concorreria num sorteio semanal de R$ 10 mil. Ela disse que não tinha muita sorte em sorteios, e eu mandei essa: a senhora sabe que numa ejaculada 400 milhões de espermatozoides são lançados e só um fecunda o óvulo? Então a senhora tem muita sorte, sim, senão não estaria aí agora, falando comigo!
A mulher, por incrível que pareça, decidiu comprar o cartão, e meu amigo chegou a comemorar quando na tela à sua frente apareceu a inscrição “venda realizada com sucesso”, mas a alegria durou pouco, pois logo depois a frase foi substituída por “compra cancelada”.
_ Ah, meu irmão, não tive dúvida, peguei o número da mulher e liguei pra ela. Quando atendeu, meio sem graça, ela me disse que o marido tinha chegado em casa naquele momento e ordenado que desfizesse o negócio.
Bola na trave. Só resta meter a mão no discador e tentar outro número. Afinal, há supervisores fungando no cangote da turma e ai de quem não apresentar produtividade que justifique o salário de R$ 460. Aos poucos que conseguem superar as metas, abono de R$ 50.
Apesar de não ser um grande vendedor, meu amigo vem conseguindo manter-se num posto onde a rotatividade é frenética. A maioria dos que entram é dispensada ao final de três meses, o que desobriga a empresa de arcar com direitos trabalhistas. É o tal período de experiência. Mas o cara é raçudo. Sua média de intervalo entre uma ligação e outra é de incríveis oito segundos. É o tempo que leva para se refazer de mais uma derrota e seguir em frente. E ele tem outro trunfo: sua lábia.
_ A maioria dos funcionários vive em comunidade, tem pouca instrução, então a empresa valoriza quem sabe argumentar, como eu e alguns médicos, engenheiros, advogados que não conseguiram trabalho melhor e estão lá.
A rotina num call center é draconiana. Lembra os piores tempos da Revolução Industrial ou as fábricas de tênis no Sudeste Asiático. Durante as seis horas, o funcionário tem direito a duas pausas. Uma de dez minutos e outra de vinte. Na maior, ganha um pão com ovo e um refresco daqueles de saquinho. Mesmo assim, o supervisor precisa autorizar por escrito a parada.
Instruída num breve e deficiente curso de capacitação, a maioria dos funcionários da empresa tem pouca ou nenhuma noção de técnicas de venda. Uma das poucas coisas que aprendem é que precisam estabelecer um diálogo com o comprador em potencial. Se este entra na conversa, já é um bom sinal. Se dá o número do CPF então, é meio caminho.
_ Essa hora é difícil _ diz meu brother. _ A pessoa tem medo de fornecer o número por telefone. Aí, eu digo que já está na identidade, no cheque, que não tem perigo...
Sobrevivendo da própria verve, o operador de telemarketing tenta matar 200 leões por dia _ e quando abate unzinho comemora como se fosse gol em final de campeonato, porque na maioria das vezes vira picadinho na boca das feras do outro lado da linha. Pelo menos, alguns se orgulham de não apelar para a chamada "venda suja", em que se inventa vantagens que o cartão não dá. Embora tudo seja gravado, a empresa muitas vezes faz vista grossa, porque precisa apresentar resultados ao banco, que já é enorme, mas quer ficar ainda maior.
Pode esfregar as mãos agora.

